Mediação artística e cultural: que transformações?

Em 2022, realizou-se o primeiro Congresso Internacional de Mediação Artística e Cultural na Escola Superior de Educação de Lisboa. Perante as alterações do papel e lugar dos artistas e das artes nas sociedades atuais, assim como as relações entre os públicos e as diversas manifestações artísticas que abriram o espaço para o surgimento de novos profissionais capazes de desenvolver uma nova função: a mediação artística e cultural, pareceu pertinente interrogar-nos sobre a Profissionalidade dos mediadores artísticos e culturais. Recentemente, a trajetória vagarosa de afirmação da mediação artística e cultural em Portugal (Cruz, Suzanne, & Vohlgemuth, 2025) acelerou-se com, entre outros indicadores, o surgimento de vários cursos de curta duração (Plano Nacional das Artes, Acesso Cultura, entre outros) e a implementação de Projetos Culturais de Escolas na maioria dos Agrupamentos Escolares em Portugal no âmbito do Plano Nacional das Artes sob a égide dos Ministérios da Educação e da Cultura. Embora a mediação artística e cultural não possa ser considerada como uma profissão no sentido sociológico e não tenha ainda obtido o reconhecimento dos poderes públicos nem dos públicos, nem cá nem em França por exemplo (Aboudrar & Mairesse, 2025), são cada vez mais frequentes os profissionais presentes nas organizações culturais com essas funções e são muitas as expetativas criadas como consequências de uma intervenção nessa área. É nessa perspetiva que nos pareceu relevante juntar investigadores, profissionais e estudantes dessa área, para analisar as transformações decorrentes de intervenções em mediação artística e cultural ou transformações potenciadoras dessas práticas. As transformações podem ocorrer a montante (nas políticas ou nos quadros normativos) para criar condições favoráveis à prática da mediação ou a jusante como consequência da mesma. As transformações podem incidir sobre as pessoas, as organizações culturais, as políticas e/ou as práticas (Arnaud, 2018; Mörsch & Fürstenberg, 2012; Pires do Vale & Brighenti, 2023; Suzanne, 2022). Por isso, esperam-se contributos vindos do mundo da investigação, mas também dos profissionais com apresentação de análises críticas de projetos implementados e dos quadros que definem linhas orientadoras às diversas escalas territoriais e que se enquadram nos eixos seguintes.

Eixo 1: Mediação artística e cultural: políticas e transformações 

A partir da sua representação do que deve ser a cultura e a sociedade, André Malraux iniciou, em França, uma política cultural para a democratização da cultura  (Caune, 1996). Vários sociólogos (Bourdieu, 1977, 1979; Bourdieu & Darbel, 1966; Donnat, 1994; Lahire, 2006, 2012; Neves, 2001; Pais, Magalhães, & Antunes, 2022) evidenciaram estreitas ligações entre classes sociais e práticas culturais. O desígnio de democracia cultural encontra-se plasmado em vários documentos legais, normativos da ação cultural (Cruz et al., 2025). Portanto é inegável o processo de politização da cultura, entendida como a conversão dos factos sociais de natureza diversa em objetos da esfera política e, por sua vez, os efeitos desse fenómeno nos factos convertidos e nos factos sociais no seu conjunto (Dubois, 2012). É nesse terreno que se desenvolveu a mediação artística e cultural uma dinâmica nunca estabilizada entre as autoridades políticas, os artistas e os públicos. Nesse quadro, esperam-se propostas com enfoque nas relações entre políticas culturais e intervenção em mediação artística e cultural em vários contextos. Pode tratar-se de políticas facilitadoras ou não de intervenções nessa área por construção de dispositivos, atribuições de subsídios…  ou de práticas impulsionadoras de novas políticas a diversos níveis territoriais.

Eixo 2: Mediação artística e cultural: territórios e transformações 

Como sublinha Arnaud (2018), a ação cultural (em particular as intervenções em mediação artística e cultural) é constantemente confrontada com desafios artísticos e estéticos, mas igualmente sociais, políticos e económicos que deformam e enformam as fronteiras da cultura. Nos territórios, entendidos como espaços geográficos, sociais e simbólicos, da escala local à escala global, projetos de mediação artística e cultural são usados para alavancar o desenvolvimento, sustentável ou não, no sentido de uma maior inclusão social ou não (Costa, 2018). Os espaços públicos investidos por este tipo de projetos podem assim serem reapropriados pelos habitantes (Hassani, 2019). Neste eixo, esperam-se novos contributos, vindos de Portugal e não só, de natureza experiencial e/ou investigativa para melhor compreender as transformações territoriais decorrentes de intervenção em mediação artística e cultural e os impactos dos territórios sobre os projetos de mediação implementados.

Eixo 3: Mediação artística e cultural: organizações culturais e transformações 

Em Portugal, em 2023, na senda da Carta de Porto Santo (Conferência do Porto Santo; Républica Portuguesa – Cultura; Plano Nacional das Artes; GEPAC, 2021) que sublinha a complementaridade da democratização da cultura e da democracia cultural para alcançar uma democracia plena, foi lançado o Kit de Compromisso de Impacto Social das Organizações Culturais (Pires do Vale & Brighenti, 2023). Nesse documento, são apresentados princípios, mas igualmente instrumentos de acompanhamento do impacto social das organizações culturais. Por outro lado, na Suíça, Mörsch e Fürstenberg (2012) salientam os processos de transformação das próprias organizações culturais através das práticas de mediação artística e cultural. Por isso, importa analisar as organizações culturais enquanto transformadoras ou objetos transformados pelas intervenções em mediação, em diversos contextos nomeadamente escolares.

Eixo 4: Mediação artística e cultural: práticas e transformações 

Finalmente, outras transformações frequentemente referidas são as transformações das próprias pessoas: os participantes nas atividades de mediação artística e cultural, os próprios artistas ou os profissionais que as dinamizam. Como referem Maurel (2010) ou ainda Henry (2014), não se trata só de transformar as pessoas em espetadores dedicados, mas de permitir que cada um se construa através das práticas culturais. Com novas formas de pensar a arte, temos igualmente de deixar de ver o palco como centralidade e pensá-lo como espaço de transformação recíproca entre quem produz objeto artístico e quem se apropria dele (Rathier & Innocenti, 2010). Com o aumento da cobertura do Plano Nacional das Artes, interessa particularmente perceber que transformações são concretizadas nos alunos, nos docentes e nas práticas educativas implementadas quando a arte e a mediação entram nas escolas  (Kerlan, Carraud, Choquet, & Langan, 2015).

Referências 

Aboudrar, B., & Mairesse, F. (2025). La médiation culturelle (4o ed). Paris: Presses Universitaires de France. 

Arnaud, L. (2018). Agir par la culture. Toulouse: Editions de l’Attribut. 

Bourdieu, P. (1977). Sur le pouvoir symbolique. Annales. Histoire, Sciences Sociales, 32(3), 405–411. https://doi.org/10.3406/ahess.1977.293828 

Bourdieu, P. (1979). La distinction. Critique sociale du jugement. Paris: Minuit. 

Bourdieu, P., & Darbel, A. (1966). L’amour de l’art. Les musées d’art européens et leur public. Paris: Minuit. 

Caune, J. (1996). La politique culturelle initiée par Malraux . Espaces temps.net

Conferência do Porto Santo; Républica Portuguesa – Cultura; Plano Nacional das Artes; GEPAC; (2021). Carta do Porto Santo: A cultura e a promoção da democracia: para uma cidadania cultural europeia. (2021). Região Autónoma da Madeira; Madeira Islands; 2021Portugal.EU: Região Autónoma da Madeira; Madeira Islands;Portugal.EU. 

Costa, P. (2018). Estratégias para a cultura da cidade de Lisboa 2017. Lisboa. Recuperado de http://www.cm-lisboa.pt/fileadmin/VIVER/Cultura_Lazer/ESTRA_CULTURA_LISBOA_2017_01.pdf 

Cruz, C., Suzanne, G., & Vohlgemuth, L. (2025). Olhares cruzados sobre a emergência da mediação artística e cultural nas políticas culturais em Portugal. Rotura – Revista De Comunicação, Cultura E Artes, 5(2), 227–243. 

Donnat, O. (1994). Les Français face à la culture, de l’exclusion à l’éclectisme. Paris: La Découverte. 

Dubois, V. (2012). Le Politique, l’artiste et le gestionnaire: (Re)Configurations locales et (dé)politisation de la culture. Vulaines sur Seine: Éditions du Croquant. 

Hassani, C. (2019). Impulsion artistiquepour la transformation en Europe, au Moyen-Orient et en Afrique du Nord. In W. Schneider, Y. Butel, T. Bärworlff, & G. Suzanne (Orgs.), Dispositif de transformation Pratiques culturelles et processus artistiques (p. 21–34). Universitätsverlag Hildesheim. 

Henry, P. (2014). Un nouveau référentiel pour la culture? Toulouse: Editions de l’Attribut. 

Kerlan, A., Carraud, F., Choquet, C., & Langan, S. (2015). Un collège saisi par les arts. Toulouse: Editions de l’Attribur. Lahire, B. (2006). La culture des individus (2a). Paris: La Découverte. 

Lahire, B. (2012). Tableaux de famille (3o ed). Paris: Gallimard. 

Maurel, C. (2010). Le travail de la culture: des concepts aux pratiques. In F. Liot (Org.), Projets culturels et participation citoyenne. Paris: L’Harmattan. 

Mörsch, C., & Fürstenberg, S. (2012). Le Temps de la Médiation. Recuperado de https://www.kultur-vermittlung.ch/zeit-fuer-vermittlung/v1/?m=10&m2=8&lang=f 

Neves, J. S. (2001). Práticas culturais dos portugueses (2): Espetáculos ao vivo. Folha OBS, 3

Pais, J. M., Magalhães, P., & Antunes, M. L. (2022). Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses 2020 Síntese dos Resultados. Lisboa. Recuperado de https://www.ics.ulisboa.pt/sites/ics.ulisboa.pt/files/2022/inquerito_praticas_culturais_2020.pdf 

Pires do Vale, P., & Brighenti, S. (2023). Compromisso de Impacto Social das Organizações Culturais Fundamentos, Metodologia e Instrumentos de Apoio. Recuperado 3 de novembro de 2025, de https://cisoc.pna.gov.pt/kit-cisoc/ 

Rathier, J.-P., & Innocenti, L. (2010). Qu’est-ce qu’une action culturelle appropriée? In F. Liot (Org.), Projets culturels et participation citoyenne (p. 99–114). Paris: L’Harmattan. 

Suzanne, G. (2022). Esthétique de la médiation. Aix-en-Provence: Presses Universitaires de Provence.


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